Coluna | Era sol que me faltava
Nesta semana nos elevamos ao terceiro círculo do purgatório de Dante, o dos Irados, o último caracterizado pela perversão do amor.
Aqui encontramos uma nuvem de fumaça tão espessa que não é possível visualizar nada, apenas orientar-se pelos sons das vozes dos espíritos iracundos que nele habitam. É, é como diz o dito popular: “Estão cegos de ódio”.
A Ira é talvez uma das emoções que experimentamos com mais frequência, duvido encontrar alguém que jamais tenha se irado e dito: “Ai que ódio!” ou então: “Senhor, dai-me paciência, porque se me der força eu mato!”. Podemos começar a identificar os primeiros contornos deste pecado, que pode ser assemelhado à um acesso de breve loucura.
Tomando por base os escritos de Sêneca, a ira, diferentemente dos outros vícios que afetam nosso julgamento, afeta a nossa sanidade. Enquanto as demais perversões iniciam leves e vão crescendo despercebidas, a Ira chega, se impõe, e atira o homem nessa paixão frenética.
Retomando a questão da cegueira instantânea a do acesso insano que a ira provoca, se faz quase imprescindível que não nos coloquemos em ação quando estamos por ela dominados, tendemos a agir como se tudo nos fosse permitido e dispostos a “pagar qualquer preço”. Se formos capazes de parar para refletir é possível que nenhuma ação se manifeste, afinal, a Ira desaparece se tiver que esperar, como mais uma vez afirma Sêneca.
Como um movimento interno que produz um desejo de vingança, a Ira se refere a uma ofensa recebida, a uma agressão, uma atitude lesiva que tenhamos sofrido. Se não soubermos trabalhá-la internamente ela pode transformar-se em impaciência, rancor, obstinação, ódio e violência. E nesses casos, necessariamente os contornos da irascibilidade são maléficos.
Assim como os dois pecados anteriores, Orgulho e Inveja, que também compõe a forma de amor pervertido para Dante, a Ira tem tonalidades de arrogância e egoísmo, na medida em que eu me sinto ofendido ou agredido pelo outro ou pelo mundo e ajo de forma a defender meus próprios interesses. Mais uma vez nos colocamos no centro do mundo e medimos as ações dos alheios a partir da nossa trena.
Que irado somos? que irados conhecemos? aquele violento? que irrita-se por tudo, com todos e também irrita aos outros, ou então aquele rancoroso? que fica “remoendo” as ofensas recebidas sem conseguir abandoná-las, ou ainda aquele obstinado? que não consegue encontrar sossego até que não infringiu uma vingança. É preciso que não nos deixemos levar pelo nosso ego ferido.
Por fim, para suavizar, a ira pode ter nuances positivas, quando tomada por uma indignação diante de uma realidade ruim ou má, isso se ação que adotarmos for motivada pelo amor e com a finalidade de alterar o cenário de modo a levar em consideração o bem comum, e não o próprio umbigo.
A obra que escolhi para representar os limites da ira humana é uma pintura da degolação de São Genaro, pintada por Girolamo Pesce em 1722.
Caloroso cumprimento e até semana que vem.
Solange Kappes
Psicóloga CRP 12/15087
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