Reabilitar-se! Este foi o tema de uma palestra recente que ministrei. Re, prefixo que, neste caso, exprime ideia de repetição, de um “fazer de novo”. Habilitar, o verbo que exprime a ação e o pronome pessoal se, indicando a pessoa. Reabilitar-se, tornar alguém novamente apto, capaz, hábil. A pergunta óbvia que sucede é: Reabilitar-se para quê? Cuja resposta possível é: Para a vida! A ideia do evento foi transitar pelas reflexões sobre a vida em tempos pandêmicos, mas, também, considerando os elementos culturais e de valores que caracterizam nossa realidade. Foi lindo e forte.
Quando pensamos na vida e no valor que somos capazes de conferir a ela, talvez nos deparemos com o quão pouco pode resultar disso. A vida perdeu valor em detrimento da técnica, do progresso, da exploração, do suposto avanço da humanidade. Aquilo que é inovador, empreendedor, tecnológico tem conduzido a vida – em todas as suas formas – para a exaustão e para um cansaço interminável ante tempos que nos exigem sempre mais, de modo a conquistar o que ainda não temos, colocando o valor de viver e a felicidade em um inalcançável depois.
Isto constatado, nos resta uma tentativa de reabilitar. E como? A resposta não é única. A meu ver, começar compreendendo e construindo os sentidos de viver é um bom caminho. Viviane Mosé, em sua obra: Nietzsche Hoje, escreve que é preciso fazer: “[…] uma ode à vida, um chamamento para uma nova e afirmativa relação com este fenômeno desconhecido e imprevisível de viver. Viver é o grande desafio, mas é preciso que o fascínio da vida possa nos seduzir, nos embriagar, nos fortalecer para que sejamos capazes de empreender as grandes jornadas em direção à nós mesmos e ao mundo”, e finaliza nos dando uma forte pista: “A arte é um antídoto para o sofrimento, somente a arte nos torna capazes de afirmar a vida em todas as suas contradições e desconhecimentos […]”.
O pensamento ou a sensação de que precisamos nos reabilitar a viver só é possível quando nós nos aceitamos e percebemos desabilitados, em desequilíbrios e com sofrimentos. No entanto, o sofrimento é próprio da vida, ele está intimamente conectado com a alegria, a felicidade, o amor, o bem-estar. Eliminar desequilíbrios e sofrimentos é eliminar também a vida. Além disso, é justamente quando sofremos que somos capazes de nos impor às situações mais difíceis e, em geral, é quando saímos em busca de nós-mesmos. Aceitamos o risco, nos desafiamos e vamos em busca da Reabilitação.
Por essas razões é que o tema da palestra não poderia ter sido melhor, a vida exige reabilitação constante, exige o entendimento de que a busca pela recuperação é infindável, ao menos até que a morte se faça. Enfim, a questão não é deixar de sofrer ou saber exatamente como atribuir valor a vida, mas é experimentar as contradições, as dificuldades e os desafios e, ainda assim, saber buscar os “remédios” adequados para a própria reabilitação.
Solange Kappes
Psicóloga CRP 12/15087
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