Uma das ocasiões mais marcantes da minha psicoterapia foi, sem sombra de dúvida, o dia em que minha terapeuta falou que eu me portava como vítima em algumas situações cotidianas. Ouvir isso dela foi uma verdadeira facada no fígado. Como assim vítima? Eu? Mas me julgo tão madura e tão sofrida por injustiças as quais fui submetida sem tê-las escolhido ou podido evitar. Talvez, esses sejam os contornos de um comportamento vitimista, se perceber ofendido, injustiçado e agredido, quando se é tão frágil e ingênuo para perceber suas contribuições nos fatos da vida. Obrigada Sandra pelo santo remédio! Daquele dia em diante, busco incessantemente fugir de vitimismos.
O vitimismo é resultante de um desejo pelo reconhecimento da dor e do sofrimento, pelo acolhimento dos outros e pelo trato cuidadoso que evite ofensas e agressões. Também é parte uma boa dose de pena de si e de lamentação pelas vivências. Ou seja, trata da incapacidade de perceber a naturalidade das mazelas da vida e da sua participação nelas, o que acaba produzindo uma bolha em que os intocáveis querem se proteger moralmente de seus erros enquanto lambem as próprias feridas.
O lugar de vítima é, ao mesmo tempo, extremamente confortável e desconfortável. Confortável porque a vítima nunca é responsabilizada por nada, ou seja, é moralmente intocável e sempre sai ilesa – resulta nesse coitadismo que vai deixando o sujeito com cada vez menos plasticidade psicológica e incapaz de lidar com seus sofrimentos e com a pressão da sobrevivência na carnificina do mundo competitivo. E desconfortável por levar ao isolamento e a solidão, ambos são consequências inevitáveis para os vitimistas. Afinal, ninguém deseja estar perto quando tudo que se diga ou se faça tem potencial para ofender ou ressentir.
O mundo não nos deve nada, nem as pessoas nos devem nada, até respeito precisa ser merecido e quando precisa ser exigido ainda não se faz jus a ele. Não passaremos ilesos pela vida, não podemos nos postar alheios ao que nos acontece e muito menos como meras vítimas das circunstâncias. Sofreremos e faremos os outros sofrer e isso não será evitado por métodos cada vez mais paranoicos de controle dos comportamentos alheios afim de não ferir ou ofender ninguém.
Dois últimos aspectos que gostaria de pincelar. Aos que se portam vítimas do mundo e dos outros, estejam cientes de que é questão de tempo para que comecem a ser evitados. E então, a fuga para diagnósticos de psicopatologias será só uma forma mais sofisticada de vitimismo que te deixará ainda mais intocável, mas, consequentemente, mais solitário. Segundo aspecto, tomar o partido de alguém que é vitimista e ofendido pode até ser confortável para os que desejam sentir-se bonzinhos, solidários e empáticos, mas não faz de você uma pessoa melhor.
Solange Kappes
Psicóloga CRP 12/15087
E-mail: psicologasolangekappes@gmail.com
Redes sociais:www.facebook.com/solange.kappes | Instagram: @solangekappes
A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a visão do veículo.